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As birras da mãe

Venturas e desventuras de uma tripeira que rumou a sul. As histórias da filha, da mulher e da mãe.

Obrigada Elisabete!

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Professora de geografia, autora de manuais escolares e banda desenhada. Tem 54 anos e está habituada a que olhem com estranheza por causa da sua paixão pelo todo terreno, ainda por cima, ao comando de um camião.

Esta semana fez história, consagrando-se na primeira mulher a ganhar uma prova de todo terreno ao volante de um camião, a Africa Eco Race.

Elisabete Jacinto conta que lhe dá algum gozo que os adversários fiquem especialmente incomodados por ficar atrás de uma mulher e que em tempos chegou a ter problemas porque os mecânicos não a levavam a sério. Refere que o seu percurso neste mundo teria sido mais facilitado caso fosse homem mas lhe dá forças acreditar que pode estar a inspirar outras mulheres a perseguirem os seus sonhos, independentemente das convenções sociais.

Somos educadas para o facto de haver coisas que as meninas não devem fazer porque é "feio" ou simplesmente porque "as meninas não fazem" e depois há exemplos destes, educada por uma geração supostamente mais conservadora do que a que nos educou, rompe com tudo que é esteriótipo e mostra que o céu é o limite.

Aos olhos de muitos deveria estar em casa a corrigir testes, fazer refeições para a família ou a pintar as unhas, e não haveria nenhum mal que se revisse feliz nesse papel, mas preferiu a areia do deserto.

É mulher, portuguesa e, pra mal dos pecados da ministra do Bolsonaro, veste azul!

Simples assim.

 

 

 

Telefonemas que nos esfrangalham os nervos

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Toda a mãe conhece aquela descarga de adrenalina resultante de receber uma chamada da escola do filho. É tão comum atendermos o telefone em pânico,  palpável do outro lado da linha, que a professora / educadora começa logo por dizer "não se preocupe mãe que não é nada de mais..." (este tratamento por "mãe" também dava pano para mangas mas será explorado noutra altura que não posso esgotar já todas as minhas duas ideias boas :P) A esta altura da chamada já as nossas coronárias deram três mortais encarpados, tivemos trezentas extrassístoles e a pressão arterial teve novo pico histórico (nada comparado com a estreia da Cristina mas vá, qualquer coisa lá muito perto)... Enfim, recebemos uma chamada só para sabermos que, por nos termos esquecido de mandar a caderneta na mochila, há um novo recado na lancheira sobre mais rifas para vender ou termos pela frente mais um trabalhinho manual que a-do-ra-mos (NOT) fazer com material reciclável e que temos de entregar  pra ontem (tão boooooom) ... 

Está tudo sintonizado nesse nível de aflição, certo?! Agora imaginem vocês que atendiam uma chamada assim:

-"Estou a falar com a mãe do menino Mateus?"

-"Está sim, quem fala?" - não reconheci o nº da escola (tenho já os dois da secretaria e o directo da sala gravados) mas já sinto os tremeliques no olho esquerdo;

-"Olá boa tarde, daqui fala da direcção geral de saúde e é "só" para lhe dizer que a senhora e o seu filho estiveram em contacto com duas pessoas contaminadas com o Sarampo."

A esta altura já eu estava em assistolia (nos filmes representada pelo Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii interrupto), vulgo o meu coraçãozinho, mesmo muito treinado pelos baques da vida resolveu fa-le-cer.

-"Ar.... De..."

Depois de ter dado dois murros pré-cordiais a mim mesma para ver se o bichinho ressuscitava, lá consegui desengasmar-me:

-"Desculpe, mas acho que não percebi bem. Pode repetir sff?"

Então a senhora, que depois se veio a identificar como enfermeira, lá me explicou que quando tínhamos ido ao pediatra por causa da quinquagésima terceira infecção respiratória deste inverno do Mateus, tínhamos estado em contacto com dois casos positivos de sarampo e que teriamos de tomar determinadas precauções tais como ligar logo em caso de qualquer manifestação típica da doença (sem  nunca nos dirigir-mos para nenhum lado a menos que nos fosse sugerido isso pela DGS, para evitar mais propagação) ou o Mateus ter de antecipar a segunda dose da vacina (que habitualmente só é administrada aos 5 anos) mas como a primeira só tinha ainda 15 dias (também tinha sofrido atraso por causa das maleitas que o fustigaram - gastroescarlatinaamigdalitedodemo) por isso só ficaria agendada para o inicio do ano.

Comigo não haveria supostamente sarilho porque eu tenho duas doses da vacina, mas com o pequeno era preciso estar mais atento porque, além das suas defesas estarem com certeza diminuídas pelas outras bichezas que o haviam massacrado nos últimos tempos, o grau de imunização da primeira dose também era duvidoso porque não tinha 15 dias...

Escusado será dizer que no decorrer desta conversa, cinematograficamente falando arranquei milhentos cabelos, roí todas as unhas das mãos e pés e ouvi o piiiiiiiiiii pelo menos umas 35987 vezes... 

Para juntar ao cocktail, isto tudo foi-me despejado em cima uns quatro dias antes do Natal  e dois antes do aniversário do meu marido. Fantástico, né? A malta a preparar os ajuntamentos típicos destas datas e depois leva com uma banhada destas - ah e tal pode ser que tenham sarampo em casa :|

-"Não é ainda necessário que se isolem do resto das pessoas, até porque a quadra não o permite" - Jura?!?!

- "Mas a qualquer sinal, entenda-se pintas, manchas, muitos espirros ou sintomas gripais é para entrar em contacto connosco, está bem?"

- "Errrrr... está bem."

Agora que já passou bastante tempo, que ele já levou a segunda dose e já estamos fora de perigo, quase (eu disse quase) consigo rir disto tudo apesar de achar que até fiquei com o olho esquerdo mais pequeno de tanto espasmo que sofreu... Foram tempos complicados estes de vigiar se o miúdo, que andando na creche está sempre tipicamente doente e ranhoso, espirra mais que o "habitual"...

Mas sabem o que é que não me passou?! A irritação e falta de paciência para quem resolve não vacinar!!! Se andássemos todos vacinados, situações destas eram diminutas e evitáveis, assim como outras com contornos muuuuuito mais dramáticos!! Juro que não me entra na cabeça como podem ser tão irresponsáveis!! Esta minha opinião já tinha sido abordada aqui, a propósito de outro surto desta mesma doença, mas agora tomou outras proporções porque mexeu com o MEU filho, porra!

Quando fomos levar a segunda dose, que acarreta uma sobrecarga enorme ao sistema imunitário do Mateus tendo em conta que foi forçosamente antecipada em 4 anos (imaginem!) e que a anterior só foi há um mês (quase que consigo ouvir os glóbulos brancos dele a dar o tilt), a enfermeira contou-me que uma mulher, mãe de três filhos que nunca foram vacinados por escolha dos pais, apesar de lhe terem sido dado a conhecer todos os argumentos cientificamente válidos para a importância da vacinação por parte dos profissionais de saúde daquele centro, tinha lá ido a correr com os três a propósito deste surto mais recente porque um dos positivos estava na mesma escola do filho do meio, então já fazia sentido que os miúdos fossem vacinados, a tudo! Ou seja, acho que os putos levaram pra cima de um horror de vacinas na mesma altura porque quando a senhora percebeu que a imunidade de grupo, que habitualmente dá boleia à postura desta gente que é contra a vacinação, estava em causa é que acordou prá vida, por assim dizer... Mas o que me dá ganas é que este tipo de episódios vai acontecer cada vez mais porque esta gente acéfala parece multiplicar-se a um ritmo exponencial! Estava preparada para continuar aqui a desqualificar estes paizinhos mas vou-vos poupar a isso, agora que já libertei um bocadinho a tensão - tipo panela de pressão, doyouknowwhatimean?

"Prontos", agora resta-me dizer que achei exímia a atuação da Direcção Geral da Saúde (não se pode só dizer mal, não é?):Estava a par de todos os pormenores, onde teria sido, quem estava, a data da vacina do Mateus, que tinha uma irmã também ela vacinada e também a data... Só me pediram para confirmar a minha vacinação porque como sou vintage (ai de quem me chamar velha, tá?) o meu boletim é dos antigos e ainda não foi informaticamente introduzido em sistema mas colocaram agora as datas das minhas duas doses. Sempre com uma linguagem muito acessível, assertiva e empática (nunca me identifiquei como enfermeira nem senti necessidade disso e quem é profissional de saúde sabe o valor que isso tem). Sim senhora, 5 estrelas! Deixaram-me quase careca, com um olho mais pequeno e com os dedos em sangue com a notícia mas foram irrepreensíveis.

Agora... VA-CI-NEM-SE, PO-RRA!

(nota-se muito que a Nena aprendeu a falar por sí-la-bas:p?)

Obrigada pai!

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A escrita sempre foi para mim terapêutica, quase como uma forma de exorcizar os meus demónios, as minhas angústias, mas também expressar as minhas alegrias e conquistas (para que não pensem que é sempre tudo mau :P).

Recentemente, no decurso de um conjunto de atividades e tarefas que me fizeram mergulhar em mim (tenho-me dedicado à área do desenvolvimento pessoal no sentido de me descobrir), foi-me pedido que escrevesse uma carta de agradecimento à pessoa que mais me feriu, àquela pessoa que mais me magoou e que "não quero, em circunstância nenhuma, ver nem pintada".

Li o desafio, reli-o e tornei a ler mas continuava a achar que havia alguma coisa de errado - "como assim carta de agradecimento à pessoa que mais nos magoou?"

Como hoje é o Dia Internacional do Obrigado  e porque acredito cada vez mais na importância de sermos gratos por tudo aquilo que nos rodeia, mesmo o menos bom, partilho convosco a carta que redigi ao meu pai. Para os mais desatentos ou para aqueles que chegaram há pouco a este meu cantinho na blogosfera, o meu pai (se é que assim se pode chamar) alienou-se do seu papel quando eu tinha cerca de 6 meses de idade. Depois de se ter separado da minha mãe (que na altura estava desempregada), nunca mais me procurou, nunca mais esteve presente em qualquer momento da minha vida, bom ou mau, nunca participou monetariamente com nada. Em 19 anos (ele morreu quando eu tinha essa idade), nunca senti necessidade de lhe escrever (apesar de nessa altura já escrevinhar algumas coisitas) mas se o tivesse feito calculo que não fosse propriamente para escrever uma carta de agradecimento. Volvidos tantos anos, a morte posterior da minha mãe, ter-me tornado eu própria mãe, quando penso na pessoa que mais me magoou, continua a ser ele o meu alvo...E mesmo assim, procurando no mais intimo do meu ser, consegui escrever-lhe uma carta de agradecimento (se isto não é transformador, não sei que diabo o será):

"Cândido,

Venho agradecer-te por me teres dado a melhor mãe que poderia ter tido, sem ela duvido que me tivesse tornado quem sou hoje mas acredito piamente que sem a tua carga genética (há quem diga que me pareço contigo) também não.

Apesar de te teres alienado permitiste que o resto da tua família que conhecesse e convivesse comigo, talvez não nos moldes das famílias mais tradicionais mas ainda assim devo agradecer-te por isso. Deste-me irmãos, quatro, tios e avós.

O teu pai, foi o único dos meus quatro avós a  ver-me na bênção da mãos (cerimónia de final de curso de enfermagem) e quanto orgulho eu e a minha mãe tivemos que ele lá fosse participar, assistir e rejubilar pela formação da neta (penso que teria 94 anos na altura e foi a conduzir para lá - lembro-me dos meus colegas de curso comentarem o quão lúcido e fisicamente bem estava o meu avô para a idade que tinha). Obrigada por isso.

Quero ainda agradecer pela tua ausência, pois sem ela seguramente não me tinha tornado nesta pessoa tão peculiar e desprendida. Não seria a mesma caso não tivesse sido criada por uma mãe solteira na década de 80 com tudo o que isso acarreta ou caso não tivesse enfrentado tantos dias do pai ou festas de Natal sem a tua presença.

Obrigada por teres dado espaço para isto e por permitires que a minha mãe tivesse despertado nela aquela força que me guiou até ao fim dos seus dias.

Se sou como sou, apesar da tua alienação, também a ti o devo, por isso aceita esta carta de agradecimento.

Inês"

Este exercício tão simples mas ao mesmo tempo tão complexo, foi regenerador. Quase como se tivesse uma gaveta muito desarrumada e a Marie Kondo cá tivesse vindo fazer a sua magia. Deitei fora o superficial e os artefactos que só fazem ruído e mantive-me com o essencial. 

Quando percecionamos as coisas à distância (que este exercício demanda), mantemos-nos fieis ao que verdadeiramente importa e somos superiores a ressentimentos ou rancores porque compreendemos que isso não nos acrescenta nada, só nos retira.

Desafio-vos a fazerem o mesmo exercício. Mergulhem em vós e encontrem no vosso âmago razões para agradecer a quem mais vos magoou nesta vida. Depois coloquem isso por palavras, por mais frias que vos pareçam, ponham por escrito esses agradecimento. O final, prometo-vos, é transformador!

Muito obrigada por estarem desse lado <3

(se quiserem partilhar comigo o resultado final, terei todo o gosto)