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As birras da mãe

Venturas e desventuras de uma tripeira que rumou a sul. As histórias da filha, da mulher e da mãe.

PORRA Bourdain!

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Estamos descansadinhas da vida a almoçar (porque a prole está na escola, senão esqueçam lá a parte do descansadinhas) e levamos com o balde gelado do suicídio do Bourdain!

"Caralho, Foda-se, Que cagalhão!", pensamos... (as amigas que estão connosco, avisam-nos que afinal "pensamos" em voz alta...) Ups... "Porra, desculpem lá o palavreado..." Elas sabem que sou do Norte e que me esforço sempre por não asneirar muito mas há alturas e alturas e às vezes é fodido conter a lingua que teima em ter vida própria, a puta ...

De olhos postos ainda no televisor, fico a "ruminar" a noticia e a pensar nas madrugadas que me tens feito companhia: tu nas tuas viagens gastronómicas ao desconhecido e eu nas noitadas das cólicas ou dentes do mais novo / insónias ou viroses da mais velha, you name it... Tu por esse mundo fora a encher o bandulho nos melhores tascos e eu a passar noites em claro com os putos, mas a aproveitar para viajar contigo!! Merda Bourdain!! Agora, quem é que me vai aturar?!

Mas tão depressa me apeteceu xingar-te do pior, como também me apeteceu abraçar-te e dizer-te que não havia melhor contador de histórias que tu. Porra!! Se nas tuas últimas 24 horas, alguém te tivesse dito aquilo que em 24 minutos inundou as redes socias, talvez ainda estivesses cá para contar a tua história. Aquela que ninguém quer saber... Porque ninguém quer ouvir falar dos defeitos, dos podres, dos dias em que não nos conseguimos olhar ao espelho porque não gostamos daquilo que somos ou que nos tornamos. Só querem saber dos copos, da boa disposição, das alegrias... Mas caramba, todos somos feitos de bons e maus momentos (se tivermos sorte, são mais momentos bons que maus) e essa mistura faz de nós aquilo que somos. Ás vezes só precisamos que alguém nos escute e que nos diga que é "normal" sentirmos isto ou aquilo, que é "normal" sentirmo-nos em baixo pois só um super homem não se deixaria afectar por tenta merda que nos acontece...

Num mundo onde a conectividade tecnológica impera, estamos cada vez mais sozinhos... Somos meninos para partilhar com o mundo a nossa "fronha" ao acordar, mas incapazes de demonstrar aos mais próximos o nosso verdadeiro estado de espírito, porque algures no tempo as pessoas deixaram de ter paciência para isso... "Oh, lá vem aquela com os seus dramas..."  Verdade que não há pachorra para gente melodramática, mas alturas há em que é lifechanging  (literalmente) detectar sinais de que aquela pessoa que amamos precisa de ajuda para digerir determinado sentimento, que precisa de ajuda para perceber que há razões para não desistir...

Não sei bem o que se passará na cabeça de uma pessoa que termina com a própria vida. Que pensa "friamente" no assunto, escolhe e prepara o método e deixa a nota de despedida. Só sei que tem de os no sítio, caralho. Há quem entenda como fraqueza (e talvez até seja pois como disse não faço porra de ideia do que sente uma pessoa que se mata), mas eu cá acho que é preciso ter tomates pra acabar com a própria vida. Imagino que na altura H pode faltar a coragem de premir o gatilho, ou atirar-se da ponte ou qualquer outra coisa.

Há uns anos valentes soube de um caso que me chocou particularmente pois além de se tratar de um jovem (penso que de 20 anos) com a vida toda pela frente, se enforcou de uma altura inferior à sua. O que significa que bastava colocar os pés nos chão para não morrer... Imaginam quão quer desesperadamente uma pessoa terminar com a vida pra não se pôr de pé enquanto sufoca?! Que contraria o seu instinto de sobrevivência até ao limite, até ao seu fim?! Eu não consigo... O que sei é que invariavelmente são pessoas de quem se gosta muito, cuja essência nos toca de alguma forma. Dos famosos assim de repente estou a lembrar-me do Heath Ledger, Robin Williams, Kurt Cobain, ... Todos eles fora de série, todos eles queridos pelas multidões mas terrível e irremediavelmente sozinhos...

Andava já há alguns dias para vos recomendar uma série que comecei a ver - já papei a primeira temporada nos intervalos das birras, fraldas e papas - e que faz-nos pensar muuuuuuito sobre o tema. Além do mais, sendo nós mães, ainda mexe mais com o nosso âmago. Falo-vos de 13 razões para morrer e conta a história de uma adolescente que, adivinhem lá, se suicida, deixando o relato das 13 coisas que despoletaram a sua decisão... Parece macabro, eu sei  e as opiniões dividem-se entre ser uma série do catano ou ser desnecessária mas, na minha opinião, as personagens, as histórias paralelas, a banda sonora estão espetaculares e, no fundo, demonstra bem que de facto não somos todos iguais e os acontecimentos que para para uns são processados de uma forma mais ou menos orgânica para outros entranham-se e tornam-se o seu demónio... Não querendo revelar nenhum pormenor para não vos estragar a cena, o mais impressionante é que a jovem não demonstra palpavelmente a intenção de terminar com a sua vida mas os sinais estavam lá todos... Se puderem, vejam que vale muito a pena. Como mãe tocou-me particularmente por ser assustador a facilidade com que a garotada nos esconde os seus problemas...

Mas voltando a ti, não sei que demónios terias nem se os demonstraste a alguém, mas desconfio que tal como na série e, sobretudo como na vida real, todas as pessoas relativizaram as coisas e no meio da correria do dia-a-dia ninguém te "escutou" ou te "viu". Terás respondido vezes sem conta que "está tudo bem"... Ninguém percebeu para onde "ias" e tu decidiste acabar por aqui. Lamento pelos que te rodeiam porque vão martirizar-se até ao fim dos seus dias por não te terem amparado enquanto puderam, lamento pelas minhas madrugadas que ficaram orfãs mas sobretudo lamento muito por ti, por não chegares a ver o reconhecimento que se multiplica por esse mundo fora....

Porra Bourdain, PORRA!