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As birras da mãe

Venturas e desventuras de uma tripeira que rumou a sul. As histórias da filha, da mulher e da mãe.

Ontem foi dia de festa!

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Há 66 anos e um dia em hora incerta, que isto de se ter 12 filhos numa vida de lavoura sem dinheiro para relógio e a guiar-se pelo sino da igreja tem destas coisas, nasceu uma menina muito especial.

Desde cedo demonstrou ser lutadora e quando aos 10 anos tudo se encaminhava para abandonar a escola porque não havia dinheiro para mais (o pai era uma pessoa muito reta e como não podia ter os 10 filhos - porque houve duas perdas em tenra idade - a "fazer a escola toda", andavam só até à quarta classe e já se sacrificavam muito para isso), eis que a professora vendo o potencial da aluna lhe sugere escrever uma carta ao estadista nacional António de Oliveira Salazar. Nunca pensaram receber resposta, muito menos tão rápida e com ela veio uma bolsa para continuar com os estudos. Foi preciso sair de casa porque só havia liceu a cerca de 30 Kms e naquela altura, em Trás os Montes, significava muitas horas de viagem. E assim foi a rapariga dos vestidos de chita que herdava das irmãs mais velhas ,quer fosse Verão ou Inverno (era a mãe que os fazia e só conseguia comprar aquele fininho tecido porque os mais quentes eram muito mais caros), estudar para um colégio de padres e viver para uma pensão onde, apesar de pagar tanto como os outros, como era filha de gente humilde e só usava sapatos em dias de festa para não os romper, uma vez que ainda uma irmã mais nova para os calçar, era a última a ser servida e nunca podia repetir, mesmo que sobrasse.

Naquela altura nos meios rurais só estudavam os ricos, e rica era tudo o que ela não era por isso destoava muito dos restantes.

Depois de pagar o colégio, a pensão e as viagens, ainda sobravam cinco tostões que religiosa e orgulhosamente entregava aos seus pais como forma de agradecimento e pagamento pela sua falta - é que sabem, sempre eram menos dois braços a trabalhar na lavoura, quando à mesa uma sardinha tinha de dar para 3.

Esta moça foi crescendo e, apesar de ser das melhores alunas do colégio e de ter potencial para ingressar na faculdade (o "padrinho" ditador continuava a financiar o percurso dado o excelente aproveitamento), cansou-se de ser maltratada só porque sim, porque na altura não se falava em bullying e muito menos se dava importância aos sentimentos dos pobres, estava careca de não ter eira nem beira (de que lhe serviam os estudos se não os podia vestir ou comer?) e escreveu novamente a Lisboa a agradecer por tudo mas que desejava interromper os estudos para começar a trabalhar, afinal as irmãs tinham saído cedo de casa para "servir" e estavam a dar-se bem na vida porque apareciam na terra calçadas e com casacos.

Ela já tinha 16 anos e ainda vivia às custas da bolsa assim resolveu ir para o Porto, primeiro trabalhar como administrativa, depois como jornalista num semanário de onde foi despedida por receber mais que o director, em comissões de publicidade angariada para a página central. Desta altura contava peripécias como encontrar porcos a serem criados em banheiras no recém inaugurado bairro do Cerco...

Fura vidas, vingou como empresária de sucesso no ramo têxtil depois de ter ficado sozinha com uma bebé de 6 meses e com 7 contos no banco... Na altura 7 contos valiam mais que hoje mas para quem não tinha "rede" era assustador.

Podia ficar para aqui horas a contar os seus feitos, as suas conquistas mas acho que já perceberam que não há linhas, palavras nem parágrafos que reflitam a grandiosidade da "fera".

Mãe, no teu aniversário há festa por aí e por aqui porque é uma data que deve ser sempre celebrada. Todos aqueles que amaste, todos aqueles que tocaste, te celebram neste dia, um bocadinho mais que noutros. Sim, que não há dia que não me lembre que tenho de te contar as novidades, os meus medos e as proezas dos teus netos, mas há datas que vincam ainda mais as saudades. Estes dias são assim, "vincados".

Este ano ias ficar de beicinho porque o meu clube fez mais pela vida que o teu, mas não te preocupes que o teu genro está a fazer a cabeça dos putos de tal forma que a Madalena já sabe o hino e tudo. Sim, aquele hino que punhas a tocar em altos berros na aparelhagem sempre que me querias irritar ou arrancar da cama aos domingos de manhã - só papoilas saltitantes cá em casa, a minha cruz como vês continua :P

Tem uma certa graça ver que a festa do campeonato foi feita no mesmíssimo sitio onde há 26 anos celebraste junto dos familiares e amigos mais próximos a entrada nos entas. O que me ri ao ver a tua cara quando puseram a musica do Paco Bandeira a tocar. Karma minha mãe. Dói não dói quando nos "dedicam" músicas da treta? Ao menos eu podia fugir para a casa de banho! :P

Parabéns minha mãe! Uma beijoca muito grande da tua pituca. <3