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As birras da mãe

Venturas e desventuras de uma tripeira que rumou a sul. As histórias da filha, da mulher e da mãe.

Deixem a natureza em paz!

Deixem a natureza em paz!.jpg

 

Muito se tem escrito sobre o nascimento real britânico nestes últimos dias. O que mais sobressai é o facto desta mulher enervar qualquer mortal que tenha sido mãe toda desgrenhada, suada e inchada, não é? Ou é só a mim que é que faz comichão este ar de quem veio agora de férias?

Assim à primeira vista estas fotografias da Kate a sair da maternidade como se nada fosse não têm a ver com o título do tema que hoje vos trago, mas tem tuuuuudo a ver.

Este assunto estava na calha há já algum tempo mas por qualquer razão ainda não o tinha escrito (é hoje que sou linchada em praça pública). Talvez por que tivesse algum receio das reações que pudesse suscitar ou porque não se tivesse ouvido falar tanto no assunto como nesta última semana, aqui estou eu preparada para dar o corpo às balas (ou não... mas queselixe sou uma mulher ou um rato?)

Então vamosláber o que uma coisa tem a ver com a outra, Kate aparece assim fresca e fofa porque, além da equipa de cabelos e maquilhagem que a devem arranjar ou não fosse ela a futura rainha de Inglaterra, ter boa genética e cuidadinho com a alimentação, teve um parto normal e natural. E o que é que isto quer dizer? Que pariu (desculpem-me os mais sensíveis mas a expressão "dar à luz" causa-me uma certa brotoeja :P basta verem o cartoon cá da xafarica) por via vaginal e com a menor intervenção médica possível, incluindo sem a bela da epidural. E isto meus senhores, faz toooooda uma diferença!

Digo-vos isto com conhecimento de causa quer por ser profissional de saúde quer por ter tido um parto induzido (por restrição do crescimento intra-uterino) e outro natural e, garanto-vos que depois de ter tido o Mateus estava fresca e fofa também (só me falharam as cabeleireiras e as maquilhadoras :p).

Nos dias de hoje tem-se a tendência de se querer controlar tudo, inclusivamente chega-se ao extremo de controlar o dia e a hora a que a pequenada nasce porque não se gosta de imprevistos nem de incertezas. Às 38 semanas (e às vezes até antes) os garotos recebem ordem despejo - vá, faz-te à vida que já se faz tarde! Induzem-se partos, as dilatações não acontecem porque receber ocitocina pela veia não é a mesma coisa que a produzir e muitas vezes o processo arrasta-se mais de um dia para culminar numa cesariana. Ou então pior, parte-se logo para a biolência e saca-se o puto de cesariana porque nem a mãe quer passar pelo parto (não sabe o que é mas ouviu falar horrores e por isso prefere ao procedimento controlado e indolor, pensa ela, mas depois de passar a anestesia é que são elas) nem o médico quer ter de ir durante a noite ou ao fim de semana "bater com os costados" ao hospital...

E isto é, na minha óptica, muito, muito errado. Primeiro porque a natureza é sábia e salvo raras excepções não é necessário induzir o parto ou fazer a tal cesariana à cabeça e segundo porque o parto é um processo fisiológico e não patológico, por isso deve ser o menos medicalizado possível (com isto quero dizer que se deve interferir o menos possível e só quando necessário). Não pensem que sou daquelas pessoas que defende que os partos devem acontecer em casa ou assim, nada disso. Sou uma mulher da ciência, sou enfermeira e acredito que tanto mãe e bebé estão mais seguros num hospital (ou deveriam estar) onde podem estar monitorizados e receber todo o apoio e ajudas necessárias, mas só e apenas quando for preciso.

Atenção que não sou só eu que acho mas a própria Organização Mundial de Saúde já notificou as entidades portuguesas de que alguma coisa tem de ser feita para travar este crescendo de intervenções nos partos.

Não acredito e também não quero de forma nenhuma dizer que se seja melhor ou pior mãe consoante o tipo de parto que se tem, muito longe disso. Mas sei que a recuperação é muito diferente. Não só o que está estritamente relacionada com a intervenção, por exemplo depois de uma cesariana ou episiotomias (corte do períneo) extensas a mulher fica com bastantes dores e limitações locomotoras que dificultam a exigente tarefa de cuidar de um recém nascido e tudo que isso implica, mas também como ter um bebé prematuro ou imaturo trás frequentemente problemas relacionados com a amamentação e a pressão de aumento de peso.

Por exemplo, vocês sabiam que quanto maior for quantidade de soros que a mãe faça durante o trabalho de parto maior vai ser a perda de peso do bebé nos primeiros dias de vida? Esta perda de peso não é real, claro. O que o bebé vai perder vão ser aqueles líquidos extra que lhe foram administrados através da mãe durante o parto, mas será o suficiente para que o pediatra e enfermeiro, andem atrás daqueles desgraçados com a balança a pressionar para a introdução dos suplementos... Isto já está mais que provado e já toda a minha boa gente da área sabe mas não se ouve falar, porquê? Porque nunca se tem isto em conta na hora de pesar o bebé? Porque é muito raro que uma mulher não seja "encharcada" em soro nates do bebé nascer! No parto do Mateus não houve tempo para nada (um dia destes ganho coragem e conto-vos como foi mas não será hoje), nem um sorinho me puseram e o que aconteceu é que quando o pesaram no dia da alta (2 dias após o parto) ele já tinha aumentado face ao peso do nascimento (quando o "normal" é isso só acontecer ao fim de 10/15 dias). Ficaram todos admirados, mas quando referi que não tinha recebido soro antes do parto (só me puseram depois a ocitocina em curso para facilitar a dequitadura - expulsão da placenta - e prevenir uma complicação grave do puerpério - a atonia do útero) acenaram todos com a cabeça. "Ahhh é tão raro que nem nos lembramos desse pormenor..."

A medicina evolui todos os dias para dar resposta aos problemas de saúde das pessoas, não devendo ser utilizada com leviandade. Portugal é o nono país do mundo com maior número de cesarianas e isso é fruto de dois fenómenos gravíssimos: a ignorância (desculpem mas não há outra forma de o dizer) das famílias que não são devidamente esclarecidas dos riscos que incorrem e a ganância da classe médica e dos hospitais privados que ganham mais pela cesariana do que pelo parto normal. Basta ver que 66% das cesarianas portuguesas são feitas no privado e este número, por si só, explica muita coisa.

É claro que ninguém morre (bem às vezes morre mas nisso ninguém gosta de falar, muito menos a uma grávida ansiosa) por fazer cesariana ou por nascer antes do tempo sem ser preciso e com certeza muitas de vós terão testemunhos exatamente nesse sentido. Porque também há quem morra de parto normal e é só nisso que se focam... Assim como ninguém morre por beber leite em pó ao invés do materno, mas sabendo nós o que é melhor para a saúde da mãe e do filho não deveríamos trabalhar em conjunto para esclarecer devidamente todas as dúvidas que possam existir e que estejam a toldar uma decisão até ela ser devidamente informada e em consciência? Ou vamos simplesmente ficar-nos a invejar a Kate sem querer saber o que está na base daquele ar?

Por favor não entendam esta publicação como uma crítica a quem optou por cesariana mas sim como um desabafo sobre quem "vende" a cesariana como parto 100% inócuo, indolor e sem riscos nem para a mãe nem para  bebé. A minha birra de hoje pretende ser uma reflexão sobre uma questão séria de saúde pública porque quantas mais as cesarianas desnecessárias no privado engordarem as taxas nacionais mais pressão haverá no público para que se evitem e muitas vezes implica trabalhos de parto mais longos e perigosos para quem realmente precisa desta intervenção cirúrgica.

Vá... três, dois, um: let the show begin! (que é como quem diz: que comece o linchamento!)

 

 

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